ANJO
CAÍDO
Um homem na sarjeta é tão só um homem caído,
é
quase certo estar embriagado.
Quem
se importa com um corpo na calçada jogado?
Era
Natal e talvez influenciada pela data tão linda
resolvi
me aproximar do pobre coitado.
Não
custava nada ver se ele precisava de alguma coisa!
Cheguei
devagarzinho, perguntando bem baixinho:
-- Seu moço, posso fazer alguma coisa por você?
Sem
resposta fui me afastando bem de mansinho.
Nunca
soube lidar direito com as coisas que desconheço, com
as
coisas que mexem comigo demais.
Era
melhor deixar o pobre em paz!
Mas
que covardia a minha!
Era
Natal e aquele homem no chão mexia comigo.
Com
remorso voltei para tentar falar com ele.
Insisti:
-- Seu moço, fala comigo!
O
coitado se mexeu e gemeu.
-- O que lhe dói seu moço? Fala comigo!
Com
as mãos estendidas ele me olhou e o que vi me assustou.
Uns
olhos tão azuis como o céu, uma face tão serena.
Um
ferimento bem grande no peito e a camisa ensopada.
Eu
não havia notado o machucado.
Quis
pedir socorro e ele tomou minha mão.
Impediu-me
de agir e começou a me falar.
A
voz, que voz! Nunca mais ouvirei uma igual.
-- Menina, você foi a única que teve pena de mim.
Tantos
passaram e me ignoraram.
Ajudei-o
a levantar-se e sentados ali na calçada
começamos
a conversar.
Vez
em quando ele gemia e então eu tentava ajuda buscar.
Sua
mão me segurava com gentileza, mas com firmeza
me
impedia de procurar um socorro.
Devia
estar doendo tanto!
Ele
perguntou-me se eu sabia qual o significado do Natal
e
eu ainda tão menina confessei que não conhecia,
que
ainda não entendia.
Ele
tomou minhas mãos nas suas e me falou
que
Natal era o meu gesto de amor daquele dia.
Que
Natal é deixar Jesus nascer dentro do coração da gente.
Dizendo
isso ele foi sumindo diante de meus olhos.
Teria
sido uma miragem?
Até
hoje eu não sei se o que vivi foi real.
O
homem da sarjeta, o pobre coitado ferido e jogado seria um anjo?
Não
sei realmente explicar. Maluca eu não estava.
Só
sei que nunca, nunca mais esqueci aquele Natal.
sonia delsin

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