O PARADOXO DE DOIS TEMPOS
Quando entrei naquele ambiente,
meus olhos correram primeiro para as duas
taças limpas.
As taças de cristal que não foram usadas.
Depois meu olhar ficou pregado na garrafa
de champanhe...
toda suada por fora.
O gelo há muito se fora.
Aos poucos, pequenos detalhes me pus a
observar.
A toalha bordada a mão... Um mimo.
Os pratos de porcelana.
Os talheres de prata.
Os arranjos de flores tão lindos...
Na parede dois quadros me chamaram a
atenção.
Obras de arte?
Não.
Aproximei-me e vi um nome no canto
direito. Um pequenino nome de mulher.
Caminhei até uma vidraça que estava
escancarada.
Lá embaixo duas crianças corriam e
gritavam.
O resto era silêncio e silêncio pesado.
Peguei um guardanapo para enxugar uma
lágrima.
Depois me sentei numa poltrona de canto.
Repentinamente uma música começou a tocar.
De onde vinha aquele som?
Não conseguia entender.
Era uma impressão?
Não era. Tenho certeza que não.
As notas vibravam e me balançavam.
Fechei os olhos, fiquei a absorver a
melodia e uma brisa que entrava vinha me acariciar.
Fui relaxando meu corpo retesado.
Ele andava mesmo cansado.
Aos poucos o sono tomou conta de mim e
sonhei.
Acho que voei. (Nos sonhos costumamos
mesmo voar).
Me vi tão distante
no espaço e no tempo.
Me vi correndo num campo de trigo.
Meu vestido eu ia erguendo para não
sujá-lo na barra.
Sentia o cheiro do lugar.
E o vento na cara.
E mais... eu não estava só.
Ao meu lado estava o meu amado.
Acordei.
A sala vazia... a mesa arranjada.
A brisa que vinha de fora já se
transformara em rajada.
Depressa fui fechar a vidraça e a chuva
chegou.
Meu coração ela inundou.
sonia delsin

Nenhum comentário:
Postar um comentário